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2003

FÁBIO OLIVEIRA NUNES







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Uma internet para os artistas

CONTINUAÇÃO

Ao acúmulo de características de muitos meios – imagens, sons, texto e animações – em um só, dá-se o nome de multimídia. Esse termo pode adquirir significados diferentes conforme o contexto em que é utilizado: costuma-se chamar de multimídia, artistas que diversificam sua produção em vários meios distintos. Com a inclusão do Hipertexto e seus links na rede e em CD-ROMs, a multimídia se torna hipermídia.

"O que distingue a hipermídia é a possibilidade de estabelecer conexões entre as diversas mídias e entre diferentes documentos ou nós de uma rede. Com isso, os ‘elos’ entre os documentos propiciam um pensamento não-linear e multifacetado. O leitor em hipermídia é um leitor ativo, que está a todo o momento estabelecendo relações próprias entre os diversos caminhos". (LEÃO, 1999:16)

A busca do instantâneo pelos artistas inicia-se nos anos sessenta, junto com o uso de suportes “imateriais”. “Não se desejava mais trabalhar com o lento processo de comunicação postal, era preciso fazer depressa e diretamente, passar do assíncrono ao sincrônico” (PRADO, 1997c). Assim, surgem as primeiras experiências utilizando telefone, fax, telex, Televisão de Varredura Lenta (Slow-Scan TV) e mais adiante, redes de computadores. Um dos primeiros trabalhos artísticos realizados com o uso de fax foi o evento - realizado nos EUA - N.E. Thing Co. Trans Usi Connection Nscad-Netco, em 1969, onde houve troca de informações via telex, telefone e fax entre a nova Scotia College of Art and Design e Iain Baxter do N.E. Thing Co. . As utilizações de sistemas semidigitais, como o Videotexto , também foram recorrentes entre muitos artistas.

Tão perto dos olhos - Entre as primeiras experimentações artísticas explorando o potencial sincrônico nas novas tecnologias da comunicação está “Hole in Space” de 1980. Kit Galloway e Sherry Rabinowitz criaram uma interface em tempo real entre as cidades de Los Angeles e New York City (ambas nos Estados Unidos) que, como num “vácuo no espaço”, tornavam presentes as pessoas fisicamente distantes, em espaços públicos das duas cidades. As pessoas de cada um dos locais se viam através de um telão em tempo real.

Na Internet, a instantaneidade é explorada principalmente por meio das Web Cams - câmeras conectadas a rede mundial que na maioria das vezes transmitem imagens ininterruptamente. O artista Eduardo Kac vem desenvolvendo desde 1989 uma forma de arte que denomina de “telepresence art”. Um dos seus trabalhos mais conhecidos utilizando a Internet e Web Cams é Rara Avis (1996) onde o observador via rede pode habitar virtualmente um corpo de um pássaro-robô que se encontra dentro de um aviário.

Diana Domingues define, como arte interativa, a produção artística que “possibilitada pela inclusão das novas tecnologias digitais nas práticas artísticas, modifica e coloca novos modos de fruição para o público. A intenção é propor o trabalho artístico não mais como mera criatividade do autor, mas como possibilidade de ser fruído, distribuído em rede, conectado através de terminais de computador, sempre solicitando uma ação num determinado ambiente onde sensores, sintetizadores, mouses, teclados ou outros aparatos que captam o corpo, fazem gerar novas situações ao trabalho proposto pelo artista. Cada indivíduo pode se conectar, agir, modificar, intervir”. Na Web e em outros meios tecnológicos, a interatividade aliada a instantaneidade de respostas a cada estímulo do indivíduo, “marca a passagem da arte da representação para uma arte muito mais comportamental” (DOMINGUES, 1997a). A arte interativa não é só um resultado visual mas também o processo no qual se insere o indivíduo. A interatividade na Internet apresenta-se na maioria das vezes nas decisões em textos hipermídia (utilizando-se dos links clicáveis) e por ações em ambientes virtuais.

A imaterialidade é outro elemento importante dentro do discurso poético de artistas que produzem trabalhos especialmente para a Internet – os web artistas. A busca por meios e procedimentos imateriais dá-se início junto com a busca de meios de propagação da informação de maneira instantânea, como o fax, o telefone, o vídeo-fone, a televisão e mais tarde, as redes de computadores. Todos os meios de comunicação de escala global ou regional juntos, criam uma trama informacional de caráter imaterial, denominada ciberespaço. O termo é também usado freqüentemente para denominar a própria rede Internet, embora possua uma dimensão que a Internet ainda não possui.

Telefones, celulares, rádio e televisão; infra-estrutura de cabos de cobre ou fibras ópticas, ondas de rádio e redes locais (Intranets, por exemplo) ou globais, tendo seus terminais de comunicação ou suas informações gerenciadas por computadores, formam o ciberespaço. (DUARTE, s/d)

Esse novo conceito de espaço sem referencial físico cria o que se pode chamar de ciberlugares, locais de troca de informação e relacionamento que não acontecem em espaços físicos mas em um fluxo informacional. A melhor maneira de tentar entender esse conceito é pensar onde ocorre um bate-papo via Internet: no conjunto de computadores conectados a uma mesma sala de bate-papo, em cada um deles ao mesmo tempo.

O alcance mundial da Internet é um dos pontos que a fazem atrativa tanto comercialmente como para a disponibilização de informações. “Perante a estrutura descentralizada, abrangência global sem fronteiras geopolíticas e fluxos codificados de informação, o controle na Internet é não só tecnologicamente impossível como também, por essas mesmas características, politicamente inviável” (DUARTE, s/d). Para um internauta no Brasil pouco importa se o site que ele acessa está na França ou na Indonésia. Não há alfândegas digitais, nem qualquer outro obstáculo para o fluxo informacional global dentro da rede. Mas há exceções: algumas nações como a China, que em 1996, bloqueou o acesso a mais de 100 sítios internacionais, incluindo a revista masculina Playboy e os principais jornais, revistas e boletins de informações do mundo. Embora a tentativa do governo chinês seja controlar o acesso a livre informação, esse tipo de atitude não impede o acesso a outros sites menos conhecidos de conteúdos “proibidos”, demonstrando que a censura mais eficaz ao conteúdo da rede é aquela que é feita pelo próprio usuário por meio de softwares como NetNanny, que bloqueiam o acesso aos sítios que contiverem determinadas palavras. Assim, ao bloquearem a palavra sexo, estará bloqueando sites pornográficos, mas, ao mesmo tempo, impedindo o acesso a sérias discussões científicas sobre o tema. Mesmo assim, se a página acessada tiver conteúdo pornográfico e não possuir nenhuma das palavras censuradas pelo software, o computador aceita normalmente.

“A Obra de Arte na era de sua Reprodução Técnica” – um dos marcos da reflexão crítica sobre a produção cultural – ensaio escrito por Walter Benjamin em 1936, propõe uma mudança nos conceitos da estética clássica, acreditando que a possibilidade de reprodução quase infinita das imagens altera o cerne da experiência artística. Embora na época, Benjamin baseou-se principalmente na fotografia e nos primórdios do cinema, muito do que foi dito por ele, hoje vale para entender o que acontece na Internet, onde a cada acesso, uma cópia é criada.

Benjamin entendia a reprodutibilidade como algo positivo, “por desmascarar a ideologia elitista da estética ocidental. Para ele, a arte não deveria ser pensada em oposição à indústria cultural, mas dentro dela. E as tecnologias seriam instrumentos para desmistificar teorias supostamente universais do belo, mostrando que, na verdade, elas não passavam de visões de classe sobre códigos socialmente compartilhados de comunicação” (ANDERÁOS, 1997). A reprodutibilidade seria o fim da arte aurática – o culto ao objeto de arte único – e da autenticidade. E na rede, onde um trabalho de arte pode ser infinitamente reproduzível essas características desaparecem definitivamente.

É claro que não se pode resumir a escolha de um artista por um meio em especial simplesmente por algumas características gerais. É certo que a busca pelo novo, a instantaneidade, a interatividade, o uso da hipermídia, o caráter imaterial, o alcance mundial e a reprodutibilidade infinita são pontos tão importantes quanto os motivos pessoais do artista - como o baixo custo de divulgação de um trabalho ou mesmo a maior facilidade de lidar com o computador. Nestas considerações, passamos a falar sobre os trabalhos de arte realizados especialmente para a Internet – a chamada Web Arte.

Parte integrante da dissertação de mestrado "Web Arte no Brasil: algumas interfaces e poéticas no universo da rede Internet", realizada sob a orientação do Prof. Dr. Gilbertto Prado, na UNICAMP.
© Fábio Oliveira Nunes: entre em contato.

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