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2003

FÁBIO OLIVEIRA NUNES







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Uma internet para os artistas

CONTINUAÇÃO

As experiências artísticas utilizando-se de redes já datam de algum tempo. Antes do computador, os artistas criaram a arte postal nos anos 60. Depois disso, com os avanços no campo dos satélites e das transmissões eletromagnéticas, aliadas com um desejo de realização instantânea, começam as primeiras experiências artísticas utilizando-se de artefatos eletroeletrônicos como a televisão de varredura lenta (Slow Scan TV), o telefone, o fax, e as redes de computadores que de início eram estabelecidas somente para eventos determinados e logo a seguir desfeitas. Da associação das telecomunicações com a informática, surge o termo telemática, que ainda hoje é utilizado para designar trabalhos criados nas redes de computadores como a Internet (arte telemática).

Quando comparada com a fotografia, é impressionante a rapidez com que a Web Arte, em menos de cinco anos, chega ao circuito internacional de arte contemporânea. Hoje, esse novo meio de arte que utiliza a rede mundial de computadores – a Internet – está presente nos grandes acontecimentos das artes – como a Bienal de São Paulo e a Documenta de Kassel – mesmo ainda não sendo conhecida do grande público ou do público da grande rede. O número de trabalhos artísticos criados especificamente para a Web, ainda é muito pequeno e são pouco divulgados. É muito maior o número de sites que levam a insígnia “artes”, por meio de galerias virtuais, museus on-line e portfólios de artistas, ou seja, a maioria das citações artísticas é referencial a pinturas, esculturas e instalações que existem independentemente da rede.

A Web Arte - a arte telemática produzida para a Internet – tem como principal característica ser constituída de trabalhos especialmente produzidos para rede ou que, ao menos, utilizam a Internet como parte integrante da obra ou evento artístico. A princípio não se possui ainda definição ou vocabulário muito definidos.

Mas o que faz um artista escolher a Internet para a criação de seus trabalhos artísticos? Essa é uma pergunta a ser respondida por duas respostas diferentes, porém, complementares. Uma é geral e é válida para todos os meios. Outra é específica e considera as mais diversas características da rede mundial.

Primeiro, temos que levar em consideração toda a história da arte a que temos acesso hoje. Em todos os tempos, os artistas sempre buscaram o novo para sua a época, seja sob a forma de pensamento, seja sob a forma de técnica. Sempre os pioneiros são lembrados e colocados para a posteridade. Os exemplos são muitos, Marcel Duchamp, artista francês conhecido por seus readymades, incorporou algo novo tanto em pensamento e discurso poético como em técnica, ao colocar objetos fora de seu contexto inicial, destituindo funções. O mais conhecido de seus readymades é a Fonte (1917), que é um mictório, típico acessório de louça de sanitários masculinos, onde discute autoria, aspectos da industrialização e o mercado de arte da época. Questões pertinentes ao seu tempo, assim como foi importante a vida moderna incipiente para os futuristas e a irracionalidade da Segunda Guerra para o Dadaísmo. Muito mais do que simples temas, os aspectos da época acabam por estabelecer novas maneiras de entender e fazer arte. O Futurismo incorpora às artes, a performance e os poemas barulhistas. O Dadá faz uso de materiais diversos e o Neo-Dadá cria a arte postal por meio de publicações dos participantes dadaístas.

Assim, os artistas incorporam novas idéias e novos meios relacionados ao seu tempo.

"O surgimento de novos meios tecnológicos de produção audiovisual, principalmente os eletrônicos, provoca uma influência de difícil avaliação sobre as formas culturais tradicionais. Esses meios possuem caracteres que renovam a criação audiovisual, reformulam a nossa visão de mundo, criam novas formas de imaginários e discursos icônicos ao mesmo tempo em que recodificam as imagens dos períodos anteriores".(PLAZA e TAVARES, 1998: XV).

Mas novos meios não tornam obsoletos os antigos. O que acaba existindo é uma reformulação de linguagem, uma busca de novos objetivos. A pintura deixou de representar o real assim que a fotografia se mostrou muito mais eficaz e rápida para esse fim.

Por outro lado, temos muitos artistas buscando novas possibilidades e experimentações. Os novos meios são ricos em possibilidades nunca antes vistas. O coreano Nam June Paik, em 1963, inverte os circuitos internos de um televisor para distorcer as imagens recebidas, além de utilizar-se de um imã para interferir no tubo de imagem. Essas experiências – talvez despretensiosas para o artista –“dão as diretrizes para todo o posterior desenvolvimento da arte do vídeo e provoca uma reversão no sistema de expectativas figurativas do mundo da imagem técnica” (MACHADO, 1988:117). Assim como Paik, outros artistas pioneiros contribuíram para a incorporação de novas tecnologias nas artes. No Brasil, o primeiro artista a identificar a arte computacional com a arte contemporânea é Waldemar Cordeiro que cria obras de cunho “industrial” e “construtivo”.

Artista em pele de engenheiro – Waldemar Cordeiro, junto com outros artistas como Julio Plaza e Abraham Palatik, é considerado um precursor da arte computacional brasileira. Cordeiro foi um dos mentores da arte concreta e organizou o célebre evento Arteônica em 1971 – o primeiro evento de arte e tecnologia do Brasil em grande porte – realizado na FAAP, em São Paulo. Defendia que os artistas deviam ter um domínio das linguagens de programação para tirar um proveito completo da máquina. Acima, “A mulher que não é B.B.” de 1971, computação gráfica realizada conjuntamente com José Luiz Aguirre e Estevam Roberto Serafim, professores de tecnologia da Universidade de São Paulo (USP).

A grande maioria dos artistas escolhe a Internet para a criação artística por suas características específicas tais como: uso da hipermídia, instantaneidade, interatividade, imaterialidade, alcance mundial e reprodutibilidade infinita. Muitas destas características já existiam antes do advento da rede mundial de computadores. Mas é aqui que todas elas se encontram em um mesmo meio. A Internet, sob uma ótica regressiva, é uma soma dos veículos de comunicação impressos (jornais e revistas), do rádio e da televisão, podendo ainda ser encontradas características do telefone, do fax e até mesmo do cinema.

 

Parte integrante da dissertação de mestrado "Web Arte no Brasil: algumas interfaces e poéticas no universo da rede Internet", realizada sob a orientação do Prof. Dr. Gilbertto Prado, na UNICAMP.
© Fábio Oliveira Nunes: entre em contato.

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