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Uma internet para os artistas
“Todos os homens se
falarão, compreenderão seus idiomas e
quase se tocarão, mesmo estando uns num hemisfério
e outros em outro”.
Leonardo da Vinci (1452-1519)
É indiscutível que a fotografia, desde quando foi
inventada, demorou muito para ser encarada como um objeto artístico.
Era uma inovação tecnológica para a época,
sem dúvida, tão importante quando o advento da tela
de pintura a séculos atrás. Não bastou simplesmente
inventar um novo meio, foi necessário criar utilizando
esse meio. Os artistas – entes com uma vontade híbrida
de explorar novas possibilidades e criar imagens que trabalhem
com o lado sensível e intelectual do ser humano –
sempre viveram em todas as épocas com um objetivo: criar
imagens que fossem representativas de sua época ou do meio
vivido. A arte possui um papel fundamental no entendimento do
pensamento de uma época. Mesmo nos momentos em que a arte
desvincula-se da vida, por meio de formas, materiais e temas,
o artista dificilmente consegue destituir-se do seu meio e das
idéias do seu tempo.
Dentro dos vários campos da arte contemporânea ligada
a novas tecnologias, o objeto desta pesquisa é um entre
os muitos reflexos de nossa era. Os homens estão cada vez
mais comunicáveis, próximos mesmo quando estão
distantes. E as fronteiras, a cada dia, estão se tornando
mais obsoletas. A lista de invenções que possibilitam
tais mudanças é extensa. Tudo começa com
o telégrafo, seguindo com o telefone, rádio, televisão,
fax, computadores, e todos eles cada dia mais acessíveis,
baratos e fáceis de usar. Dentro dessa lista, um deles
possui um valor maior quando comparado com todos os outros antecessores,
no aspecto de ter assimilado todas as características alheias
em si mesmo, constituindo o que chamamos de multimídia.
Um computador – associado às telecomunicações
– nos dias de hoje, pode captar ondas de rádio e
enviar dados via cabo, comunicando-se com o resto do mundo. E
para isso – comunicar-se com o resto do planeta de maneira
simples – criou-se a Internet . Até agora a Internet
é o maior meio de comunicação em potencial,
já que além de ser de caráter mundial, é
bem vista comercialmente ao passo que não só divulga
produtos como também os vende diretamente.
A grande rede surge no fim da década de 60, por conta
da preocupação do departamento de defesa (Darpa)
dos Estados Unidos em um ataque nuclear massivo – tempos
de Guerra Fria com a ex-União Soviética (URSS).
Cria-se, então, uma rede de computadores, inicialmente
chamada ARPAnet, descentralizada e super-ramificada, capaz de
manter conectados centros de inteligência militar. Em 1985,
a rede já estava ligada a outras redes, agora com fins
de pesquisa entre universidades americanas e européias.
Em 1991, a rede Internet chega ao Brasil, em universidades públicas
e em 1994, começam as primeiras tentativas de acesso comercial
a Internet.

Militar me limita –
Oriunda da Arpanet, rede americana pensada para fins militares,
a Internet é constituída de outras redes (públicas,
comerciais ou científicas) e possui variados serviços,
tais como a World Wide Web (WWW), o E-mail, o Protocolo
de Transferência de Arquivos (FTP), o Internet Relax
Chat (IRC) e os mensageiros instantâneos (como MSN
Messenger) que funcionam dentro de um mesmo protocolo para
fluxos de dados. Na imagem acima, temos a sua abrangência
em 1980, quando ainda estava sob o mando do departamento
de defesa americano. Dois anos mais tarde, ela é
aberta para a comunidade acadêmica americana. |
A Internet, em poucos anos de popularidade, virou sinônimo
de modernidade e avanço tecnológico. Tanto indivíduos
quanto empresas, se vêem na necessidade de “plugar-se”,
de existir no “ciberespaço” e estabelecer relações
por meio do virtual. Como diria Mc Luhan: “Os homens fazem
ferramentas; as ferramentas refazem o homem”. Mas ainda,
o que temos na Internet é um grande aglomerado de possibilidades
e potenciais.
Hoje, pensa-se o que estaria fazendo Leonardo da Vinci, caso
vivesse no nosso tempo. Primeiro, é impossível crer
que um homem nos dias de hoje pudesse dominar tantos campos do
conhecimento – engenharia, artes, arquitetura, medicina
entre outras ciências – mesmo sendo o acesso à
informação, hoje, muito mais fácil. Pode-se
dizer que Leonardo estava não somente no seu tempo, mas
estava à frente dele, projetando de Helicópteros
a Pontes Móveis, criando obras de arte como o grande ícone
“Mona Lisa”, ou a “A última Santa Ceia”.
Hoje, certamente, ele estaria explorando as possibilidades das
novas tecnologias digitais.
Leonardo antes de tudo foi um artista interdisciplinar e sabia
muito bem relacionar entre os vários campos do conhecimento,
sendo eles científicos ou não, com as artes e tirava
um bom proveito disso. É por esse aspecto que podemos começar
a estabelecer relações de um novo meio artístico,
no qual o criar é ser artista e técnico ao mesmo
tempo; é trabalhar com aspectos poéticos de um lado
e de outro. A necessidade de ser um exímio conhecedor de
técnicas que – a princípio – não
tem nenhuma relação com um fazer artístico.
Todo meio e material possui suas leis e regras de trabalho chamadas
de técnica. Chamamos a aplicação desses conhecimentos
de tecnologia. Os trabalhos artísticos produzidos por meio
das novas tecnologias, possuem um diferencial em relação
com a arte tradicional : pedem uma especificidade técnica
muito maior no momento da criação em virtude de
que na maioria das vezes a ferramenta ou processo utilizado não
fora concebido com aquela função. A arte de vanguarda
possui a característica de experimentação
e desvirtuação de funções, como acontece
nas artes ligadas às novas tecnologias.
Voltando a fotografia, sabe-se que esta permaneceu a margem do
circuito das artes durante muitas décadas, mesmo depois
de ter colaborado – em parte – para um nova maneira
de pintar – seja por meio de impressões ou de expressões.
Embora decretada a pintura como morta, ela revigorou-se. Os novos
meios não acabam com os antigos. No máximo, o que
existe é um processo de transformação, como
aconteceu sucessivamente com o cinema e a televisão, o
rádio e a televisão e por último, com o jornal
impresso e o virtual. Mas, hoje, um novo meio surge e com ele,
uma nova arte que é rapidamente incorporada ao circuito
oficial das artes, de maneira que impressiona quando comparamos
com a lenta aceitação da fotografia.
Parte integrante da dissertação
de mestrado "Web Arte no Brasil: algumas interfaces e poéticas
no universo da rede Internet", realizada sob a orientação
do Prof. Dr. Gilbertto Prado, na UNICAMP.
© Fábio Oliveira Nunes: entre
em contato.
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