TopoImprimirEsta páginaOutra página
2012

FÁBIO OLIVEIRA NUNES







Livros
Artigos científicos
Artigos jornalísticos


 

O fake na web arte: incursões miméticas na produção em arte e tecnologia na rede Internet

Fabio Oliveira Nunes (Fabio FON)


1. Introdução

Em 1998, surgem alguns rumores no circuito underground europeu sobre o trabalho de um escultor iugoslavo chamado Darko Maver, artista de passado nebuloso e obras impactantes, referenciando a abusos sofridos por vítimas de tortura. Sua produção estaria baseada em corpos mutilados e fetos mal-formados, cuja existência somente poderia ser evidenciada por meio de imagens disponíveis na rede Internet. Em seu país, Maver teria sido acusado de “anti-patriotismo”, sendo então, censurado e preso. A perseguição sobre o artista reverbera em exposições e atos contra o abuso do governo da Iugoslávia em várias partes da Europa, sobretudo diante de notícias do contexto político conturbado do Leste Europeu. Nas exposições de obras censuradas do artista, somente imagens dos trabalhos eram expostas, pois seus originais teriam sido destruídos. Algum tempo depois, uma imagem de Maver morto na prisão passa a circular pela rede Internet, repercutindo em inúmeros veículos da imprensa européia e incentivando homenagens e diversas ações que instituíam a Maver todas as menções de um verdadeiro mártir. Uma destas ações acontece durante a 48ª Bienal de Veneza, na Itália, um dos eventos mais relevantes da arte no mundo. Entretanto, no ano 2000, surge uma revelação: a dupla de artistas 0100101110101101.ORG – codinome de Eva e Franco Mattes – declaram que a vida e a obra do artista Darko Maver eram inventadas e que todos os documentos e imagens do artista foram forjados. Os artistas criaram uma ação que assumiu contornos e repercussões reais a partir de uma presumida veracidade dos fatos, imagens e documentos distribuídos através da rede Internet.

É fato que lidar com situações que buscam se passar por verdadeiras não é exclusividade dos meios de comunicação mais recentes. Por exemplo, é conhecida a transmissão radiofônica de Orson Welles de A Guerra dos Mundos em 1938, que, narrada com todos os elementos noticiosos típicos do rádio, causou enorme pânico aos ouvintes que imaginavam uma invasão alienígena real. Mas, é notável que a rede Internet – instantânea, mundial e descentralizada – torna-se hoje o meio mais susceptível a estas incursões, tanto por oferecer um relativo encobrimento ao indivíduo que publica conteúdos, quanto por justapor em uma mesma experiência de navegação faturas de diferentes naturezas, que se confundem nas possibilidades de criação, edição e manipulação digital.

Em resposta à freqüência dos boatos em redes digitais, desde os primeiros anos da Internet, se institucionalizou um termo específico: Hoax. Os Hoaxes são boatos e histórias que se passam por verdadeiros e são difundidos por rede. Em grande parte das vezes, eles se apresentam através de apelos dramáticos com cunho sentimental ou religioso, através do anúncio de algum risco eminente, como vírus ocultos no sistema operacional ou o fim da Internet, por exemplo. Em todos os casos, o Hoax é direcionado ao usuário básico, que crê no que é apresentado e encaminha aos seus contatos. Atualmente, é cada vez mais visível a proliferação dos chamados perfis fakes – falsos perfis presentes em redes sociais ou ambientes da chamada Web 2.0. No site de relacionamento Facebook , por exemplo, estima-se que 27% dos usuários inscritos são fakes. Especialmente para essa população ficcional, há sites que disponibilizam itens para a construção de identidades ficcionais nas redes sociais, apresentando não apenas fotos apropriadas para diferentes perfis como também textos similarmente parametrizados a determinados grupos ou faixas etárias – com gírias, corruptelas, além de ilustrações, adereços gráficos e emoticions. Ao mesmo tempo, para uso através de programas de teleconferência ou comunicadores instantâneos, existem softwares gratuitos capazes de simular uma transmissão via webcam – com o uso de imagens gravadas previamente – e outros capazes de alterar o tom da voz de seu usuário ao microfone em tempo real.

Assim, é certo que a aparição destas formas questiona a credibilidade, a profundidade e a própria abundância de relações e informações do ciberespaço – em especial, nossa capacidade de discernimento e análise distante de um volume incomensurável de situações. Diante deste panorama, diversos artistas da web irão seguir estes pressupostos gerando trabalhos questionadores.

2. Web arte

A produção em web arte está ligada ao campo de significações que a Internet suscita. São trabalhos pensados dentro das especificidades técnicas e conceituais presentes da rede mundial de computadores. Embora a premissa “web” remeta originalmente à World Wide Web, o termo é também aplicado a ações que extrapolam a interface gráfica da rede. Em alguns contextos, a produção é também chamada de “net art” e/ou “internet art”. No acesso a trabalhos de web arte, podemos enumerar algumas condições recorrentes: efemeridade, visto que a tecnologia permanece em caráter de atualização constante e deste modo os trabalhos estão sujeitos a novos elementos em sua visualização, tais como novos browsers ou plug-ins; recepção técnica de baixo controle, ou seja, a recepção pode variar conforme as especificidades de cada equipamento que se conecta ao trabalho, tornando-se algumas vezes impossível determinar com precisão a visualização e funcionamento em cada computador visitante; a necessidade de repertório computacional, visto que é fundamental que seu visitante domine com plenitude o universo de interfaces inerentes à obra – sabendo, por exemplo, como clicar, arrastar ou acessar um endereço web, visto que estas ações comuns aqui são indispensáveis. Há que se observar também que estes trabalhos operam em alcance transnacional – podendo focar em públicos mais amplos e mensagens potencialmente universais.

Os trabalhos de arte na rede Internet podem também ser lidos como parte do universo de produções que se apropriam dos meios de comunicação – a chamada Artemídia. Independente do meio envolvido, esta apropriação implica no desvio de pressupostos objetivos, funcionais e produtivos, diferenciando-se das demais aplicações. Entretanto, essa distinção não significa que trabalhos de arte e tecnologia não possam buscar aparência e comportamentos similares aos seus equivalentes não-artísticos. Muito pelo contrário: há uma significativa vertente de trabalhos que buscam justamente parecer-se com outras aplicações, assumindo muitas vezes os modus operanti convencionais. Aliás, em um estudo anterior, intitulado CTRL+ART+DEL: Distúrbios em arte e tecnologia, detectou-se a existência de ações artísticas em arte e tecnologia que assumem modelos sociais. Esta vertente se apresenta junto a demais vertentes críticas em arte e tecnologia, entendendo-se por crítica, uma postura dissonante dos valores hegemônicos da tecnologia, questionadora das intenções e implicações sociais dos novos meios. Conforme CRITICAL ART ENSEMBLE (2001, p.35), diante de representações de poder na era do ciberespaço, coube aos artistas dos novos meios “a responsabilidade de ajudar a estabelecer um discurso crítico sobre o que está realmente em jogo no desenvolvimento desta nova fronteira”. Então, dentre as produções críticas em novos meios, o estudo constatou preliminarmente ações com modelos sociais, termo adotado diante de vários trabalhos que propõem criar entidades sociais ambíguas, formas que assumem valores do seu contexto e os reenvia à sociedade.

Neste estudo anterior, um dos exemplos trazidos é o célebre trabalho de web arte FuckU-FuckMe (1999) do artista Alexei Shulgin que criou um site fake de comércio digital que ofereceria drivers genitais capazes de proporcionar uma relação sexual efetiva à distância, um trabalho crítico que discute diretamente o fetiche tecnológico e a indústria do sexo virtual. O artista aqui se apropria de um modelo recorrente em sites comerciais, onde há áreas como “pedido”, “Questões mais freqüentes” e no caso de dispositivos, “especificações técnicas”. É exatamente esse ato de assumir características de um equivalente não-artístico – sites de comércio eletrônico – que dá verossimilhança à proposta, tornando possível acreditar que tais dispositivos realmente estivessem à venda.

 

Publicado originalmente em:
NUNES, Fabio Oliveira. O fake na web arte: incursões miméticas na produção em arte e tecnologia na rede Internet. In: 21º Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas - ANPAP, 2012, Rio de Janeiro. Vida e Ficção/Arte e fricção. Rio de Janeiro: ANPAP, 2012.

Texto integrante da pesquisa MIMETISMO: ESTRATÉGIA RELACIONAL EM ARTE E TENCOLOGIA, realizado sob apoio da FUNDAÇÃO DE AMPARO À PESQUISA DO ESTADO DE SÃO PAULO (FAPESP).


© Fábio Oliveira Nunes: entre em contato.


início