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2003

FÁBIO OLIVEIRA NUNES







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Territórios de uma arte global

Fabio Oliveira Nunes (Fabio FON)

“Telematicamente, a mente não tem fronteiras”.

Roy Ascott (1997:344)

Ao fim do século XX, o conceito de território já havia sido completamente revisto. Antes mesmo da popularização da rede Internet, fala-se na idéia de uma Aldeia Global, num patamar comum, vizinhos cada vez mais próximos. Dinamarca, Holanda, França, Japão, China, Haiti, Sudão. Os estados nacionais, as nações, perdem sua força. A economia de mercado, o Capital, toma para si o controle das relações sociais, políticas, culturais – o Neoliberalismo. Corporações Transnacionais. O meio de comunicação comum a todos, a rede mundial Internet torna-se, ao mesmo tempo, agente e resultado neste processo.

No território digital não há fronteiras, nem alfândegas.Há um livre trânsito de informações, pessoas e produtos do meio. Em similaridade, as fronteiras terrestres – reais – tornam-se cada vez mais rarefeitas, obsoletas. Surgem várias comunidades entre países que oficializam essa condição por motivos comerciais e/ou para fortalecimento diante de outros blocos mundiais.

Diante de fluxos muito mais dinâmicos, a produção cultural mundial parte para uma certa homogeneidade. A Mass Media – nos anos 90, onipresente em todos os meios – parte para um arcabouço comum muitas vezes centrado na figura do indivíduo urbano, a metrópole e seus problemas, violência, solidão, perversão e outros tantos que tornam a geografia, o lugar-origem cada vez mais invisível e indefinido. Através da arquitetura urbana contemporânea, podemos traçar paralelos, através da visão de IBELINGS (1998:67) sobre a globalização e suas características:

"Ainda que hoje seja possível destacar a natureza multicultural, multiforme das áreas urbanas em todo o mundo como sinal de crescente heterogeneidade, os argumentos mais sólidos parecem favorecer a uma condição homogênea. A presença por todo o planeta de cadeias de negócios e restaurantes de comida rápida, assim como de anúncios de bem de consumo disponíveis nas quatro esquinas do globo, de Sony a Malboro y Nike, são as manifestações mais óbvias desta homogeneização. Mas existem muitos outros indícios. Um é o fato de que as cidades e aglomerações urbanas de todo o mundo têm desenvolvido crescimentos e perfis semelhantes. Não importa para onde nós olharmos, sempre parece haver centro urbanos repletos de arranha-céus, vizinhanças do tipo residencial, periferias urbanas cruzadas por rodovias e polígonos de negócios. E em todas as partes, a arquitetura explorada com esses fins tem um certo grau de inexpressividade. A tendência parece mais clara que em nenhuma outra parte nas cidades asiáticas, objetos de numerosas reportagens recentes em publicações que descrevem, com uma mescla de surpresa e admiração, o desenvolvimento frenético de cidades como Seul e Xangai".

Essa homogeneização global irá ser ainda mais visível naqueles espaços que AUGÉ (1994) irá classificar como não-lugares, tais como supermercados, aeroportos, centros comerciais, hotéis, rodovias e outros espaços de passagem nos quais existe a impressão de serem idênticos, independentemente do lugar do mundo onde estão situados.

Neste processo, os indícios de localidade se perdem, se unificam. Assim como na rede mundial: um universo descontextualizado, por excelência, alçando proximidades distantes em âmbito geográfico.

2.1 Arte global

Se o processo de globalização vem criando homogeneidades, estas por sua vez, estabelecem um repertório comum para qualquer indivíduo que se encontre em um conglomerado urbano. Seja um logotipo de uma famosa rede de comida rápida, sejam as placas de localização e indicação em aeroportos ou mesmo as indicações de trajeto numa rodovia, constrói-se pouco a pouco, um gigantesco repositório visual onde significado independe da origem do indivíduo. Neste processo, ainda, a informação passa a ter um valor crescente, tanto para o indivíduo quanto para as instituições. O peso da informação para a sociedade globalizada estará diretamente ligado a um código comum: o digital, o universo computacional, interfaces, sistemas operacionais.

Neste contexto, global por excelência, a produção artística para a Internet dispensa fronteiras. O ciberespaço – das transmissões celulares, passando pelos cabos de fibra ótica às transmissões via satélite – como entidade onipresente, coloca o mundo a disposição dos artistas e vice-versa.

Sob o aspecto transnacional, é necessário citar a arte postal – mail-art – como precursora destas questões ao atravessar fronteiras e estabelecer trabalhos intercambiados por artistas de diferentes países via correio. Em meio a movimentos como o Neo-dadá e Fluxus, a arte postal tem sua origem no ano de 1963, data de fundação da “New York Correspondence School of Art” pelo artista Ray Johnson. Sobre a arte postal, Walter ZANINI (1981), escreveu:

"Atividade de clara mobilização internacional, marcada pelo quantitativismo, com a dinâmica de seus gestos-signos e mais raramente com seus objetos-signos, a arte postal espraiou-se num espectro extremamente vasto de conteúdos, utilizando todo e qualquer veículo de comunicação disponível na sociedade de consumo. Se esse conglomerado anárquico de mensagens irreverentes transtorna, é porque a civilização está transtornada".

Mas o globo só poderia realmente ser visto como uno através dos satélites: emanam mensagens numa nova escala, sob um ponto de vista literalmente global. Sobre as potencialidades artísticas das novas tecnologias, Stephen WILSON (1997:326) atenta para o internacionalismo nas telecomunicações:

"Os artistas podem muito bem querer enfocar especificamente as diferenças nas perspectivas e nas culturas que as telecomunicações tornam acessíveis, ou enfocar a interdependência das comunidades mundiais manifestadas simbolicamente em trabalhos de rede de telecomunicações. Todavia, os artistas têm de estar conscientes que a tecnologia das telecomunicações apresenta, ironicamente, uma ameaça para a diversidade cultural ao mesmo tempo em que tenta promovê-la".

Essa nova escala de recepção/transmissão de mensagens será ainda mais ampliada com o advento das redes telemáticas.

Do mesmo modo que a produção em arte postal, grande parte dos eventos que buscam abordar a produção de arte digital ou net-arte, serão realizados em âmbito internacional – inclusive aqueles realizados no Brasil – abarcando realizadores das mais variadas partes do mundo.

No Brasil, festivais como o FILE – Festival Internacional da Linguagem Eletrônica– ou o Videobrasil– Festival Internacional de arte eletrônica – passam a intercambiar as produções internacionais com as produções de artistas brasileiros. Esses eventos passam a ser ilustrativos de uma produção brasileira crescente em novas tecnologias e da necessidade de discussão das questões inerentes a esse tipo de produção artística.

Dentro desse contexto global, em que a produção artística brasileira para a rede Internet encontra-se no mesmo rol das produções internacionais, configurando-se muitas vezes ao lado de produções das mais variadas partes do mundo, é inegável a necessidade de criação de trabalhos igualmente de cunho global, sob a pena de restringir significados a um universo local ou regional.

Assim, muitos artistas irão produzir trabalhos com dois ou mais idiomas disponíveis ou que não necessitem de um entendimento mais complexo de uma língua que não seja o inglês. Bem como partirão para elementos visuais difundidos internacionalmente ou intrínsecos à vida moderna, convenções da informática ou da Internet que sob o aspecto semântico, aproximarão visitante e trabalho visitado, independente da origem de ambos.

Parte integrante da dissertação de mestrado "Web Arte no Brasil: algumas interfaces e poéticas no universo da rede Internet", realizada sob a orientação do Prof. Dr. Gilbertto Prado, na UNICAMP.
© Fábio Oliveira Nunes: entre em contato.

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