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2003

FÁBIO OLIVEIRA NUNES







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Sobre tempo e morte na rede

Fabio Oliveira Nunes (Fabio FON)

 

Tempus edax rerum
(Tempo devorador das coisas)
Ovídeo


Em 2002, através do site de busca Google, podemos encontrar mais de 17 milhões de referências à palavra tempo (time) e mais de 32 milhões de referências à palavra morte (death) na rede Internet. Embora essa busca textual seja destituída de qualquer sentido ou contexto de uso das palavras, talvez ela nos sirva para pensar na permanente recorrência desses dois conceitos, seja efetivamente na existência humana, seja pelo uso figurado ou pela carga simbólica. De qualquer forma, tempo e morte são intrínsecos ao homem e de certo modo, intrínsecos entre si.

Desde as primeiras incursões do homem na comunicação à distância, aos primeiros adventos de locomoção não-animal – como a locomotiva e o automóvel mais explicitamente – existe a busca da transposição de distâncias geográficas, onde pessoas e informação devem chegar no seu destino no menor tempo possível, respeitados os avanços tecnológicos de cada época. Se no cotidiano, com a aglutinação da tecnologia por meio de eletrodomésticos, o tempo poupado passa a ser sinônimo de melhora na qualidade de vida do indivíduo, no campo informacional, por sua vez, o surgimento dos meios eletroeletrônicos proporciona não só a velocidade, mas avança diretamente ao limite da instantaneidade (BOSI, 1995).

Nos meios eletroeletrônicos da nossa contemporaneidade, temos a nítida experiência da instantaneidade, seja pelo discurso dos meios de comunicação de massa – que pregam “a notícia na hora que elas acontecem”, ou “a vida real em tempo real” – ou pela proliferação de câmeras ao vivo na rede Internet, ou ainda pela “agilidade” com que os fatos jornalísticos são anexados a jornais on-line na rede. De qualquer forma, a velocidade da informação, especialmente na Internet, passa a ter cada vez mais importância, não só no que diz respeito a grandes sites de notícias como também para sites dos mais variados assuntos e interesses. Há um envelhecimento da informação, que é normalmente evidenciada na queda de acesso a sites que não atualizam constantemente suas páginas.

O novo pode se tornar antigo em poucos meses. Uma interessante metáfora a esse outro tempo dado no interior da rede é vista em Cronofagia (2002) de Kiko Goifman e Juradir Muller, onde foi criado um “relógio web”. O envelhecimento e morte de uma imagem – localizada no centro da página – são dados pela ação conjunta de usuários: é necessário um determinado número de cliques para a ação se consumir de fato. O tempo de sobrevivência é dado pela própria rede. É sobre este trabalho que vamos nos estender nas próximas considerações.

3.1 Cronofagia na Bienal

Cronofagia foi um trabalho participante da 25ª Bienal de São Paulo, que, por sua vez, assim como em 1998, estabeleceu duas curadorias distintas na seleção e apresentação dos trabalhos de web arte – ou net art, assim denominados em 2002 – mas com um diferencial: na edição de 2002, surge a idéia do núcleo de Net Art Brasil, englobando a produção brasileira de arte para a rede, com artistas como Gilbertto Prado (Desertesejo), Artur Matuck (Literaterra/Landscript) e Diana Domingues (Ouroboros).

Sob a curadoria de Christine Mello, os autores de Cronofagia trouxeram os referenciais poéticos de outros trabalhos antecedentes como Jacks in Slow Motion: experience 02, com a participação de Alberto Blumenschein, Emiliano Miranda e Silvia Laurentiz, onde através de uma câmera conectada a rede Internet, era possível aos visitantes da 24ª Bienal de São Paulo visualizar os presidiários de uma cadeia fluminense. O universo poético da dupla de artistas engloba situações limítrofes, muitas vezes com alto impacto visual tratando de conceitos viscerais como a violência, a sobrevivência humana, a morte e a degradação física e moral. Paralelamente à produção, em suportes digitais, os artistas levam esse universo também para outros meios, como o cinema, em produções como Morte Densa, em que mostra histórias de assassinos-de-uma-morte-só, mostrando antagonismos e paradoxos – relações sempre presente em várias produções.

O acesso ao trabalho pode se dar diretamente quando se possui o endereço do site ou indiretamente através da página da 25ª Bienal, quando ao clicar no nome do trabalho, o visitante terá uma nova janela do navegador aberta, sem menus (comandos voltar, atualizar, parar e outros), possuindo somente a barra padrão do sistema e os seus respectivos botões de minimizar, maximizar e fechar. Na janela, encontra-se logo acima, o nome do trabalho com as palavras-chave “violência, tempo, deterioração, morte” que se mantêm em ritmo contínuo de esvaecer/aparecer. Logo abaixo, apresenta-se uma imagem de carne em decomposição, que ocupa uma grande parte da janela. Mais abaixo ainda, há instruções que incentivam a participação do usuário através da frase “clique na imagem para disparar o relógio web” e um link para outra página com um texto de algumas linhas sobre as idéias contidas no trabalho e créditos.

De todos os itens existentes na apresentação/composição visual da página web, o que mais nos interessa é a imagem de carne em decomposição que se encontra ao centro, ocupando praticamente todo o campo visual – quando visualizada em uma resolução de 800x600 – da janela. Ao entrar no site, o visitante é convidado a clicar sobre a imagem a fim de “disparar o relógio web”, quando a ação é feita, a expectativa de que algo de significativo iria acontecer, se desfaz: somente uma linha horizontal atravessa verticalmente a imagem – referenciando uma varredura – mas a imagem continua intacta.

Os autores utilizam no site um mecanismo que contabiliza cada clique efetuado sob a imagem, somando os cliques de todos os visitantes. Ao chegar a um determinado número de cliques – que não é informado em nenhum momento – efetuados por inúmeros visitantes juntos, substitui-se a imagem até então disponível, por outra que estará a mercê do mesmo mecanismo.

A título de curiosidade, podemos intuir que o número necessário de cliques para a substituição-morte da imagem seja elevado. O site foi acompanhado no período do dia 08 de maio de 2002 a 20 de junho de 2002 e, durante este período, apenas uma imagem foi substituída. Vale lembrar que parte desse período compreendeu a Bienal, o que teoricamente significa que muitas pessoas acessaram o site no espaço expositivo e através da divulgação do evento na mídia.

Bem passado – Dois momentos do site de web arte Cronofagia (2002). A primeira imagem acima estava presente no site em maio de 2002 e foi substituída logo depois, no mês seguinte, pela segunda imagem, no decorrer dos cliques dos visitantes.

Um dado a ser levado em conta numa análise mais formal é o fato de que as imagens participantes deste mecanismo são ensaios fotográficos realizados pelos artistas, verdadeiramente, com carne em estado de putrefação, o que traz um caráter evidentemente mórbido e degradante, condizente com o universo poético em questão.

 

3.2 Antropofagia?

Ao começar a adentrar o universo poético do trabalho, vale a pena localizar-se no contexto das Bienais Internacionais de São Paulo – ao menos, nas últimas duas edições, em 1998 e 2002 – que como se sabe, partem sempre de fios condutores pré-determinados para desenvolver relações entre os artistas participantes.

Em 1998, na 24ª edição, comemorando-se 70 anos do Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, propõe-se discutir uma visão modernista extremamente brasileira: a antropofagia. Há uma intenção de desconstruir uma visão eurocêntrica da arte, pautar o olhar estrangeiro e trabalhar com a visão simbólica do canibalismo, como a apropriação transcultural. O canibalismo suscita ainda uma visão atroz, visceral, certamente induzida pelos famosos relatos de Hans Staden, sobre as práticas antropofágicas dos índios brasileiros.

No diálogo destas questões, interessa-nos a questão da carne enquanto matéria, como nas pinturas de Théodore Géricault, em especial Cabeças cortadas (Têtes coupés), 1818-19, presente no núcleo histórico e como no trabalho do brasileiro Artur Barrio, no trabalho Livro de carne, 1977-98, exposto no segmento “arte contemporânea brasileira”, que consistia em um pedaço de carne sob a forma de páginas de um livro aberto. Barrio é um artista conhecido por seu interesse com as sobras, sobretudo orgânicas, como nas suas “trouxas” ensangüentadas, que eram espalhadas pelas cidades do Rio de Janeiro e Belo Horizonte, de forte cunho político e social, denunciando nos anos 70, a hedionda vida proporcionada pela ditadura militar.

Arte e morte – A relação da arte com a morte é tão longa data quanto sua relação com a vida. Inclusive, quem não se lembra que Leonardo da Vinci preenchia suas noites dessecando cadáveres? O artista, em meio a odores do corpo em decomposição, realizava estudos de anatomia sob a forma de magníficos desenhos. Aqui, temos também dois artistas – referenciados no texto – Géricault acima, com “Cabeças Cortadas” e Barrio com “Livro de carne”, que em outros trabalhos lidam com o tema de maneira incisiva.

Já na 25ª Bienal de São Paulo, em 2002, na qual está inserido o trabalho Cronofagia, temos a questão da metrópole e suas iconografias. Segundo o curador Alfons Hug, as metrópoles definem substancialmente o perfil da criação artística, diante da sua velocidade e complexidade de seus processos. Indo mais a fundo, a curadora Christine Mello, do núcleo de Net arte Brasil determinará a relação de fluxos entre cidade e rede, os movimentos imprevisíveis, os problemas do tempo e percurso:

"Ao problema do espaço na metrópole opõe-se na rede o problema do tempo: como percorrer todas as informações que interessam se o tempo necessário é maior do que o que podemos dispor? Como indica Paul Virilio, trata-se de um tempo desvinculado do tempo cronológico, caracterizado por ações simultâneas, o tempo das mídias".(nota)

Porém, se partíssemos para considerações formais em torno da matéria carne, localizaríamos muitos pontos de confluências do trabalho Cronofagia com as questões da antropofagia. A relação material/imaterial que o trabalho se propõe induz a uma relação antropofágica no sentido mais direto – do meio Internet – num processo de tradução não só imagética como do próprio sentido de degradação. Induz a um meio que se alimenta da carne – mesmo que podre – num processo coletivo de deglutição, assim como nos Tupinambás.

Parte integrante da dissertação de mestrado "Web Arte no Brasil: algumas interfaces e poéticas no universo da rede Internet", realizada sob a orientação do Prof. Dr. Gilbertto Prado, na UNICAMP.
© Fábio Oliveira Nunes: entre em contato.

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