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2011

FÁBIO OLIVEIRA NUNES







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Podemos pensar em sites 'sem conteúdo'?

Fabio Oliveira Nunes (Fabio FON)

O “conteúdo” de um meio é como a “bola” de carne que o assaltante leva consigo para distrair o cão de guarda da mente. O efeito de um meio se torna mais forte e intenso justamente porque o seu “conteúdo” é outro meio. O conteúdo de um filme é um romance, uma peça de teatro ou uma ópera. O efeito da forma fílmica não está relacionado ao conteúdo de seu programa. O “conteúdo” da escrita ou da imprensa é a fala, mas o leitor permanece quase que inteiramente inconsciente, seja em relação à palavra impressa, seja em relação à palavra falada.
Marshal McLuhan
Os meios de comunicação como extensõe
s do homem, 1971.

 

McLuhan, o famoso criador do termo “o meio é a mensagem”, defendia que o conteúdo é essencialmente um meio encapsulado em outro meio. O meio é a essência. Mas seria possível pensarmos em produções “sem conteúdos”? Apesar da posição controversa podemos pensar positivamente. Na rede, encontramos vários percursos de criação que vislumbram ações “sem conteúdo”, ou seja, que focam no próprio meio em si. É evidente que esta postura subverte o lugar comum da funcionalidade dos meios – um meio com “conteúdo” é um meio funcionalmente aceito. Uma situação “sem conteúdo” é vista com estranheza e desconfiança aos olhos de leitores ingênuos.

Sites “sem conteúdo”

Conta-se que o site de web arte JODI (www.jodi.org), criado em 1994 por Joan Heemskerk e Dirk Paes Mans, certa vez foi indicado para o diretório de sites do Yahoo!. Naquele período, os diretórios eram repositórios de sites acessados e selecionados por uma equipe de profissionais, sendo organizados por temas e assuntos variados, tal como as seções de uma biblioteca. Nos primórdios da Internet, os diretórios tinham a mesma importância que os sites de busca – como o Google – possuem hoje: o ponto de partida para se encontrar algo. Mas, JODI, por sua vez, era um tanto radical em sua proposta: possuía telas simulam erros, defeitos e vírus de computadores e situações onde o ruído de informação era levado a pontos extremos. Em outros momentos, situações de pane – da máquina e do próprio usuário – tornando sempre evidenciada a indubitável linguagem da máquina.

O fato mesmo das suas obras estarem sendo produzidas no interior dos modelos econômicos vigentes, mas na direção contrária deles, faz delas um dos mais poderosos instrumentos críticos de que dispomos hoje para pensar o modo como as sociedades contemporâneas se constituem, se reproduzem e se mantêm. Pode-se mesmo dizer que a artemídia representa hoje a metalinguagem da sociedade midiática, na medida em que possibilita praticar, no interior da própria mídia e de seus derivados institucionais [...] alternativas críticas aos modelos atuais de normatização e controle da sociedade”.


JODI, então, submetido ao julgamento de Yahoo! não foi aceito no diretório, sob o argumento de que “não possuía conteúdo”. O site não se enquadrou dentro da lógica objetiva que prevalece na rede até hoje. A proposta de JODI, por sua vez, é um exemplo clássico de discussão centrada na linguagem do próprio meio, que caracteriza os sites que enveredam pela metalinguagem na web arte. O uso da iconografia relacionada com o ciberespaço, metáforas de funções e ações na Internet e referências a símbolos comuns do meio informático são típicas características destes sites. O uso de elementos tão específicos de quem tem acesso ao ciberespaço, pode resultar em trabalhos herméticos para a maioria dos espectadores, muito distante da objetividade de conteúdos esperada a cada site que se acessa.

Será que JODI realmente não possuia conteúdo? - A linguagem do universo da máquina é primordial para se compreender as incursões do site.

 

É claro que nem todas as criações centradas na metalinguagem vão utilizar os elementos típicos do computador como parte integrante de uma composição estética: vários sites irão partir para o uso de metáforas que apresentam similaridade com práticas do computador ou da rede. O artista Holger Friese, em seus trabalhos ligados a Web, trata do comportamento do usuário frente à tela do computador através da negação dos elementos habituais de navegação e uso de metáforas. Em seu site “Unendlich, fast...” ("Infinito, quase") (http://www.thing.at/shows/ende.html), criado em 1995, o autor nos faz pensar na dificuldade de achar informações e a imensidão da rede. Trata-se de um site de uma única página em azul que através das barras de rolagem existentes na horizontal e vertical, poderemos deslizar pela página em busca de alguma informação, imagem ou palavra. Diante da grande extensão desta página tanto horizontalmente como verticalmente, o usuário poderá simplesmente desistir e ir embora: “não há conteúdo”. Aqueles que forem um pouco mais exploradores irão encontrar alguns caracteres soltos - linhas e estrelas - sem nenhum link para outra página. Ao romper com as atitudes usuais (não há inclusão de hiperlinks para outras páginas ou a busca de facilidades na navegação) e causar um desconforto por conta disso, é que o artista propõe ao usuário que reflita sobre seu comportamento.

Rachelmauricio

Nesta mesma condição metalingüística estão os trabalhos de web arte do projeto Rachelmauricio, ao quais vamos nos deter um pouco mais. No caso, até o momento presente, a criação está imersa em um misto de anonimato e personificação: na tentativa de conhecer mais sobre quem realiza estes trabalhos, descobrimos que seus criadores são identificados somente como rache12 e mnc1978, na maioria das vezes. O primeiro ponto a ser observado é que a Internet, ao mesmo em que é um espaço de exposição da privacidade dos indivíduos ali presentes, seja pela própria iniciativa dos internautas em sites de relacionamento, seja pela onisciência de sites de busca como o Google, é também um espaço do anonimato e da acepção de novas personas. Ainda que não seja hoje possível privar-se de ter a vida exposta na rede, torna-se possível criar uma representação que oculte a face real daquele que atua. Assim, apenas sabemos que os criadores rache12 e mnc1978, traduzidos em caracteres alfanuméricos, tal como logins e passwords da rede, nos oferecem o universo de Rachelmauricio a ser explorado.

Um dos trabalhos de Rachelmauricio Castro nomeado com o título enigmático de [͉͉ 7͉͉ ].

 

A dupla proporciona um mundo muito fértil entre o design gráfico e a web arte, pervertendo a legibilidade e o tratamento convencional dos conteúdos. Os elementos gráficos – textos, imagens, animações – estão livres da obrigação de chegar a algum sentido ou funcionalidade – são elementos prioritariamente estéticos.  A postura subversiva do projeto está presente em diferentes ferramentas e espaços da web, seja no microblog Twitter (http://twitter.com/rache1maurici02), no site de relacionamentos Facebook ou no repositório de vídeos Youtube (http://www.youtube.com/user/rachelmauricio), além de possuir blog (http://www.rachelmauricio.blogspot.com/) e site (http://www.rache12.com) com diversas experimentações. No site, grande parte das experimentações são animações. Nos demais espaços, observamos imagens e caracteres textuais sem um sentido referencial aparente: os caracteres apresentam-se em blocos, tais como blocos de textos, junto a imagens, da mesma forma de qualquer postagem do gênero, mas não se formam palavras, não são letras, mais sim traços, quadradinhos, círculos, pontos, organizados, sugerindo uma sistematização ortográfica. É um conteúdo referencialmente ilegível.

Mas, além destas aparentes e ilegíveis seqüências temos inúmeras imagens de trabalhos em design que primam pelo caráter inusitado – tal como as próprias apropriações da dupla. Cadeiras, utensílios, luminárias, poltronas, itens destituídos de qualquer caráter convencional e, diversas vezes, no limite de sua utilidade. No caso do perfil do projeto no Facebook – perfil sem dados pessoais, diga-se – diariamente são realizadas diversas postagens, que destoam do uso prosaico da ferramenta. Nada é referencialmente dito. Não há deixar de perceber, então, que há uma pesquisa visual aprofundada sobre as relações de arte e design, complexidade e simplicidade, funcionalidade e inutilidade, estética e poética, ilegibilidade e leveza, industrial e manufaturado. Mas, Rachelmauricio não está abordando o design, especificamente. Sua maior propriedade é a metalinguagem. A cada imagem, nos mostra que suas ações no ciberespaço estão legitimadas em outros meios, em ações que nos fazem refletir sobre amplamente sobre formas e formatos, formação e informação. Em entrevista realizada antes da produção deste texto, os autores de Rachelmauricio apontaram suas preocupações com o lúdico, o movimento e a interatividade em seus trabalhos e ações. Há também uma preocupação com o discurso “aberto”, das múltiplas interpretações, que é próprio da arte contemporânea.  São questões relevantes. Entretanto, que não há como não considerarmos – observando, claro, que há outras possíveis interpretações – a contribuição desta pesquisa artística com o discurso da não-funcionalidade e da metalinguagem da própria rede.

Mais um trabalho da dupla Rachelmauricio Castro.

Retomando, então, a discussão iniciada nas considerações de McLuhan, observamos que estes trabalhos artísticos da rede Internet dedicam-se a subverter a funcionalidade prevista – a disposição de conteúdos objetivos – para fazer emergir situações nas quais o próprio meio é o protagonista. A “mensagem”, definida por McLuhan é a mudança de escala, a mudança de padrão que um meio introduz nas coisas humanas. Ao subverter as expectativas, essa

Os sites como Rachelmauricio nos oferece uma “mudança de padrão”. Muito a ver com a visão de McLuhan sobre a “mensagem” como mudança de escala, a mudança de padrão que um meio introduz nas coisas humanas.  Nestes sites de web arte, ao fazer-nos pensar em nossa relação com a máquina, a mensagem é o meio. Esse protagonismo não é, evidentemente, encarado com naturalidade ao usuário médio da rede Internet; há um incômodo perturbador de o sujeito deparar-se com estruturas aparentemente destituídas de sentido. Há que se observar que embora movimentos metalingüísticos similares estejam operando há tempos em outros meios (a que se observar, por exemplo, a discussão recorrente das estruturas e formas que constituem a linguagem pictórica – composição, linha, gesto, suporte – por pintores contemporâneos), a rede Internet é ainda vista com dificuldade fora do paradigma do conteúdo. Estes trabalhos nos conduzem a pensar em um meio em sua condição mais própria, com toda estranheza que isso impllica.

 

BIBLIOGRAFIA

DONATI, Luisa Angélica Paraguai. Análise Semiótica do Site Jodi. In: CADERNOS DA PÓS-GRADUAÇÃO. Ano I, vol.1, n°2. Campinas: Instituto de Artes/Unicamp, 1997. p. 103-111.
MACHADO, Arlindo. Arte e mídia: aproximações e distinções. E-Compós - Revista da Assoc. Nac. dos Prog. Pós-Graduação em Comunicação, n.1, dezembro de 2004.
McLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem (Understanding media). 3ª ed. São Paulo: Cultrix, 1971.
NUNES, Fábio Oliveira. Ctrl+Art+Del: Distúrbios em Arte e Tecnologia. São Paulo: Perspectiva, 2010.
VANNUCCHI, Hélia. Rompendo com as expectativas do usuário da Web. In: CADERNOS DA PÓS-GRADUAÇÃO. Vol. 3, nº 1. Campinas: Instituto de Artes/Unicamp, 1999.
RACHELMAURICIO. Questões [Entrevista por e-mail]. Mensagem recebida por fabiofon@gmail.com. Realizada entre os dias 13 e 14 de fevereiro. 2011.

Texto publicado originalmente no site CRONÓPIOS (http://www.cronopios.com.br) em 20/07/2011.

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