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2005

FÁBIO OLIVEIRA NUNES







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Ainda web arte: um consciente coletivo

Fabio Oliveira Nunes (Fabio FON)

 

A produção artística na rede mundial de computadores – a Internet – se insere no contexto das apropriações artísticas dos meios emergentes, prática comum em toda a história. Como outros meios tecnológicos, a rede não foi concebida com finalidades estéticas – e muito menos, artísticas – cabendo ao artista desvendar caminhos poéticos possíveis em contraponto aos pragmatismos inseridos nas máquinas e nos programas em seu uso convencional. Num primeiro momento, essa apropriação é importante para pensarmos a produção artística na rede Internet – a chamada web arte.

A apropriação artística é o que vai definir a especificidade dessa produção. Em caminho contrário, a simples transferência de imagens de trabalhos que já existem em outros meios (como desenho, pintura ou escultura) para páginas da rede, sob a forma de catálogos ou portfólios, não lida com as especificidades mais singulares da rede e por isso não podemos chamar de web arte. Na mesma condição, está o equívoco de extensão do termo ao design de hipermídia – também chamado webdesign – o que demonstra uma miopia em relação às finalidades de ambas as situações.

O auge da produção artística para a Internet está em meados do ano 2000. Um verdadeiro “boom”, após a popularização da rede  no fim dos anos 90, trouxe trabalhos dos mais diversos, desde projetos de grandes proporções – envolvendo equipes multidisciplinares ou grupos de pesquisa – até trabalhos bem particulares, onde o artista solitariamente passa a produzir em  softwares de criação em hipermídia, veicula e atualiza suas criações. Em todo caso, predomina a apresentação sob a forma de site.

A produção de web arte é antecedida por outros trabalhos realizados em arte telemática. Julio Plaza, por exemplo, é um dos mais importantes nomes da arte telemática no Brasil. Um grande entusiasta da tecnologia do Videotexto: primeiramente, dominando as especificidades técnicas, depois realizando trabalhos, publicações e eventos de grande porte com a participação de vários artistas e poetas. Plaza ainda investigou a fundo a tradução intersemiótica, estabelecendo conceitos para a migração de faturas poéticas de um meio para outro – uma prática que ele mesmo vivenciou várias vezes. E além do Videotexto, temos antecedentes também nas redes artísticas computacionais estabelecidas nos anos 80 para eventos efêmeros – que firmavam estruturas que hoje dispomos em tempo integral.

Entre as primeiras manifestações artísticas na rede, é obrigatório citar JODI(1997), site de artistas holandeses, de postura extremamente radical onde o visitante se perde em meio ao caos de ícones, janelas, mensagens de erro e outras situações-limite ao usuário da rede, explicitando a distância entre os códigos da máquina e o repertório humano. Na busca de uma definição de linguagem, JODI abre espaço para trabalhos que se nutrem da metalinguagem do universo computacional.

Num primeiro instante, os sites de web arte devem ser pensados fora de um espaço expositivo. De maneira geral, os sites não seduzem o público de imediato, especialmente quando concorrentes com os mais diversos apelos visuais, sonoros e espaciais. Além disso, é uma verdadeira antítese à sua essência independente. Há muitas tentativas – várias bem resolvidas – que buscam expor esses trabalhos ora buscando isolá-los, ora buscando tornando-os visualmente significativos por meio de projeções ou montagens e hardwares pouco usuais. De qualquer modo, um espaço expositivo confere legitimação artística a esse tipo de produção (algo que não se encontra na rede), tendo também um caráter didático, formando novos públicos.

Podemos citar alguns trabalhos – produzidos por artistas brasileiros – presentes na rede: Desertesejo (2000) de Gilbertto Prado, ambiente virtual multiusuário 3D sob a forma de um deserto no qual os visitantes compartilham de um espaço explorável; Mosaico de Vozes (2004) de Martha Cruz Gabriel, site colaborativo onde os participantes inserem mensagens de voz e constroem um mosaico através de ligações telefônicas, estabelecendo um universo sonoro; e Artéria 8 (2003), organizada por Omar Khouri e Fábio Oliveira Nunes, revista digital com trabalhos poéticos em grande parte traduzidos de outros meios, referenciando à poesia visual. Apesar da diversidade de poéticas e tecnologias envolvidas, nem toda a produção em web arte se apresenta enquanto sites – como veremos em seguida. O artista poderá pensar o leitor numa relação mais intrínseca com o contexto museu. Na verdade, na web arte o leitor devidamente implícito na poética do artista pode ter o seu lugar alternado entre a rede e o espaço expositivo.

Pensando o leitor no contexto do espaço expositivo e da web, a produção artística de Eduardo Kac foi sempre exemplar: suas produções como Raravis e Gênesis (2000) propõem que o visitante possa acessar remotamente o trabalho ao mesmo tempo em que se pode visitar e interagir estando no espaço expositivo. São instalações e sites na web, simultaneamente. Especialmente em Gênesis, na qual bactérias são expostas sob uma radiação ultravioleta numa instalação, o papel do internauta é primordial, pois é ele que aciona a luz através de um botão no site do trabalho (mesmo na instalação apenas pela Internet, a luz é acionada).Ao contrário dos trabalhos sob a forma única de sites, que possuem uma duração indeterminada, esses trabalhos possuem uma determinada existência, por conta do período de cada exposição, mas incorporam também a idéia do internauta como o leitor implícito na sua poética.

Mais recentemente, porém, a rede passa a ser pensada num viés mais global, onde cada usuário é parte de uma entidade pulsante, viva e construtiva. Daí abrem-se espaços para trabalhos que lidam com a idéia de emergência – onde há a insurgência de padrões, cabendo ao artista explicitá-los – e ainda, com a idéia de mente global: a rede seria um enorme repositório do nosso imaginário, entidade viva do conhecimento humano. As considerações do artista Roy Ascott  (1997: 337) seguem neste sentido:

“A Internet é a infra-estrutura crua de uma consciência emergente, um cérebro global. A Net reforça o pensamento associativo, hipermediado, pensamento hiperlincado – o pensamento do artista. É a inteligência das redes neurais. Isto é o que eu chamo de hipercórtex.”

Zapping – O trabalho I’mito: Zapping Zone da artista brasileira Diana Domingues e Grupo Artecno UCS, 2004, faz uso da rede realizando buscas em tempo real através de palavras-chave de personalidades e mitos contemporâneos. Aqui, uma visão do espaço expositivo (marcado pelo excesso de elementos em suas paredes) em que o visitante poderia manipular objetos relacionados com os mitos propostos e/ou visualizar imagens em um ambiente 3D. O trabalho participou da exposição Emoção Art. Ficial 2 - Divergências Tecnológicas, no Itaú Cultural, em São Paulo.

É por esse viés que temos trabalhos que necessariamente não mais consideram a rede como apenas povoada por indivíduos-leitores, entendendo-a como uma matriz criadora e matéria primeira. A instalação Listening Post, por exemplo, ganhadora do Prix ARS Eletronica em 2004, possui pequenos leds eletrônicos que apresentam e proferem por voz, trechos de conversas de chats e outros espaços de convívio virtual como fóruns. Temos também as instalações de Diana Domingues e grupo ArtecnoI´mito (2004)  e Firmamento (2005), ambas apresentadas no Itaú Cultural de São Paulo respectivamente em 2004  e 2005, que realizam buscas em tempo real na Internet através de palavras-chave de personalidades e mitos contemporâneos. Os algoritmos destes trabalhos se apropriam de textos do ciberespaço e os apresenta no espaço expositivo. Esses trabalhos fazem uso da rede sem necessariamente estarem efetivamente disponíveis na web.

Portanto, esses trabalhos problematizam a rede não enquanto parte integrante e sim como um canal de sinapses que emanam de um consciente coletivo. A nova condição é não apenas estar na web, mas dar-lhe voz, efetivamente.

 

BIBLIOGRAFIA

ASCOTT, Roy. Cultivando o hipercórtex. In: DOMINGUES, Diana (org.) A arte no século XXI. São Paulo: Ed. Unesp, 1997. p. 336-344.
DONATI, Luisa Angélica Paraguai. Análise Semiótica do Site Jodi. In: CADERNOS DA PÓS-GRADUAÇÃO. Ano I, vol.1, n°2. Campinas: Instituto de Artes/Unicamp, 1997. p. 103-111.
PLAZA, Julio. Tradução Intersemiótica. São Paulo/Brasília: Perspectiva/CNPQ, 1987.
PRADO, Gilbertto. Os sites de arte na rede Internet. In:Anais do VI Encontro Anual da Compós (Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação). São Leopoldo, RS: UNISINOS,  1997.
________. Desertesejo: um projeto de ambiente virtual multiusuário na web. In: CADERNOS DA PÓS-GRADUAÇÃO. Vol. 4, n.1. Campinas: Instituto de Artes, Unicamp, 2000. p.40-53.
TAVARES, Mônica. A leitura da imagem interativa. In: ANAIS do XXIV Congresso Brasileiro de Ciência da Comunicação (CD-ROM). Campo Grande, MS: Intercom, 2001.

Este artigo foi publicado no catálogo da exposição Cinético_Digital, realizada no Itaú Cultural, em São Paulo, 2005. Referência: NUNES, Fábio Oliveira. Ainda Web Arte? In: ITAÚ CULTURAL, Cinético_Digital. São Paulo: Itaú Cultural, 2005. pp. 68-70.

© Fábio Oliveira Nunes: entre em contato.

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