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2000

FÁBIO OLIVEIRA NUNES







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Três categorias da web arte

Fabio Oliveira Nunes (Fabio FON)

 

A enorme quantidade e diversidade de trabalhos de arte criada especialmente para a Internet é um reflexo do meio. Em todas as partes do mundo é possível encontrar inúmeros usos insólitos, não-convencionais ou artísticos que utilizam conceitos que rompem com as expectativas do usuário da Web ou oferecem algum tipo de contemplação estética ou narrativas complexas em suas criações. É certo que nem tudo que é insólito ou pouco convencional pode ser considerado como Web Arte, mas certamente, todo experimentalismo que aparece na rede é um caminho para o surgimento de novas experiências que podem vir a ser legitimadas como trabalhos de arte. Por outro lado, a Internet é extremamente dinâmica: a cada instante milhares de novos sites são incluídos, outros muitos são excluídos e periodicamente surgem novos programas e scripts que proporcionam novas possibilidades de criação para a rede.

Mesmo diante de uma quantidade incerta e de uma diversidade exorbitante, tentaremos determinar semelhanças entre os trabalhos de Web Arte que serão analisados. Em primeiro lugar, é necessário dizer que seria inviável tentar categorizar os trabalhos analisados com extrema exatidão, pois diante das muitas vertentes seguidas por cada um dos artistas, partiríamos para um número gigantesco de categorias, diante das possibilidades que o meio digital proporciona. Em segundo lugar, separar os muitos trabalhos por técnica utilizada ( HTML, VRML, Flash, Java etc), seria uma solução muito fácil - sem dúvida nenhuma - mas que se tornaria extremamente obsoleta em pouco tempo, decorrente da constante evolução dos softwares e do surgimento de novas linguagens e programas para criação de sites.

Assim sendo, iremos aqui determinar categorias que primam por uma característica predominante em comum com os outros participantes do mesmo grupo, mas que partem das bases mais primárias, anteriores a qualquer discussão que o trabalho estabeleça. Além disso, as características principais de cada categoria são comuns aos trabalhos dos outros grupos: aqui o que interessa é a característica que se apresenta com maior intensidade. Desta forma, todo trabalho de Web Arte poderá ser incluso em três categorias básicas: Metalinguísticos, Narrativos e Participativos.

A princípio, é certo que as características dos grupos são comuns a todos os trabalhos. Afinal de contas, ao se adotar um meio e suporte, as questões de metalinguagem são inevitáveis e necessárias para a conclusão de qualquer objeto de arte. Assim como as seqüências narrativas podem existir em qualquer trabalho diante das possibilidades de caminhos de leitura. E ainda mais especificamente ao meio telemático: qualquer site que possua um determinado número de links pede a participação do usuário. Assim sendo, estas características são comuns a todos os trabalhos, mas são utilizadas para demarcar o que predominante em cada um dos grupos.

Metalinguísticos


Os sites deste grupo caracterizam-se pela discussão centrada na linguagem do meio e nas características intrínsecas ao meio telemático, distúrbios de informação, iconografia computacional, entre outros códigos e simbologias típicas do universo informático. Assim como em outros campos das Artes Visuais, a discussão relativa ao meio poderá vir a gerar uma certa perplexidade no visitante devido a necessidade de conhecimento de códigos específicos da matéria tratada.
Estes sites de Web Arte irão romper com as expectativas do usuário comum: aqueles elementos que normalmente são utilizados com determinadas finalidades para o funcionamento do computador - cursores, botões, formulários, notas de linguagem de programação etc. - se transformarão em elementos com fins estéticos. Se tornam criações que se referem a si mesmas. Outros sites da mesma categoria, poderão ser um pouco menos explícitos: utilizarão metáforas e algumas práticas e fatos comuns da Internet ou do meio informático.
Nesta categoria estão incluídos também os sites de discussão e divulgação de experiências artísticas na rede que contribuem para o estabelecimento de paradigmas - e público também - e produzem a metalinguagem propriamente dita.

Narrativos


Os sites deste grupo caracterizam-se pelo Discurso narrativo: existe uma forte influência da literatura hipertextual, uso do verbal como parte integrante dos elementos de composição, imagens e atos com seqüências preestabelecidas, animações com início e término definidos, entre outras características que levam a tona propostas que existem independentemente da rede mas que foram especialmente concebidas para a sua disseminação utilizando este meio e suas possibilidades.
Estes trabalhos podem ser colocados no mesmo rol dos quadrinhos, do vídeo e do cinema quando se pensa em uma arte seqüencial, onde é possível partir para uma análise metonímica - uma parte pela totalidade - ou análise geral, onde o discurso deverá tratar de elementos externos ao meio, dos mais diversos sob as mais diferentes óticas. Embora todos possuem seqüências preestabelecidas, na Internet, a prática de escolha ativa de diferentes caminhos a serem seguidos é muito mais comum, graças aos hiperlinks.

Participativos


Os sites deste grupo são caracterizados pelo Processo como foco principal: uso de tecnologias e dispositivos de ação em tempo real, alterações via rede de espaços ou elementos reais, visualização e interação com imagens ao vivo, entre outras características que tornam o espectador, um verdadeiro co-autor do trabalho. Aqui a intenção não é exatamente expor um trabalho final e sim, o processo de participação do espectador com a proposta que lhe é dada. Os trabalhos que se utilizam de Web Cams, programas de mensagens em tempo real, salas de bate-papo, aplicativos com participação de vários usuários simultaneamente, controle remoto de robôs ou dispositivos mecânicos e eletrônicos, entre outros trabalhos de respostas e resultados instantâneos são incluídos neste grupo.
Diferentemente de algumas criações das outras categorias que podem ser apreciadas em suportes off-line - em disquetes, discos rígidos ou CD-Roms - sem necessidade de estar conectado a rede, aqui o trabalho só existe quando está na Internet. A estrutura física da rede (computadores, cabos de fibra ótica, satélites) é necessária para que os acontecimentos do ciberespaço se darem em tempo real, com apreciação e participação de vários visitantes ao mesmo tempo.

Este texto é parte integrante do Trabalho de Conclusão do Curso de Bacharelado em Artes Plásticas “Web Arte no Brasil: A arte telemática criada por artistas brasileiros para a Internet”, realizado sob a orientação do Prof. Dr. Milton Sogabe na UNESP – Universidade Estadual Paulista. Esta pesquisa em nível Iniciação Científica contou com o apoio da FAPESP.
© Fábio Oliveira Nunes: entre em contato.

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