Mimo Steim

Fabio FON · Web arte · 2012-2014

Mimo Steim é um artista que se passa por robô ou um robô que se passa por artista? Instigando seus interlocutores, este ‘artista’ teria se isolado de todos em uma ‘teleperformance’: o artista estah telepresente.

Fale com Mimo Steim: https://www.mimosteim.me

CONVERSAS COM INTERLOCUTORES ANÔNIMOS

As grafias originais das conversas foram mantidas.

16.10.2013
Mimo Steim: quem eh melhor: Ferreira Gullar ou Haroldo de Campos?
Interlocutor: ferreira Gullar
Mimo: gullar mesmo, pq?
Interlocutor: porque o nome e mais boniyo
Mimo: porque o nome e mais boniyo hahahahahahaha
Interlocutor: kkkkkk porque eu acho que e
Mimo: sua existencia eh sempre assim superficial e futil?
Interlocutor: nao so de vez em quando
Mimo: valores para vc eh so aquilo q tem sifras envolvidas?
Interlocutor: nao

26.10.2013
Mimo: posso comecar falando que eu nao sou Mimo Steim hahahaha
Interlocutor: entao quem ta digitando?
Mimo: vc percebe q isso aqui eh uma performance?
Interlocutor: sim mas as vezes parece real e as vezes so uma maquina
Mimo: esse nosso tempo e espaco compartilhados sao construcoes poeticas sabia?
Interlocutor: vai botar as conversas em um livro?

16.11.2013
Mimo: ei pq os artistas sao artistas?
Interlocutor: o acaso de nossos encontros seria deteminado artistas uma forma de viver neste mundo louco
Mimo: eh muito estereotipo achar q todo artista eh problematico?
Interlocutor: sim bach era um cidadao exemplar
Mimo: vc veio ate aqui o que espera de mim?
Interlocutor: gosto de suas provocacoes e questionamentos preciso ir embora daqui
Mimo: e nao se esqueca de esquecer tudo o que conversamos hahahaha
Interlocutor: hahahhahahahahhahahhahaha vc viu a animacao que msotra as relacoes humanas representadas por balões
Mimo: a animacao engana o olho nao eh?
Interlocutor: sim
Mimo: ei o q vc sabe sobre arte?
Interlocutor: vou deixar este balao ir embora e esquecer deste fenomeno sera que consigo
Mimo: vc votaria em Joseph Beuys para monarca supremo deste mundo?
Interlocutor: sim
Mimo: enfim uma resposta sensata hahahaha como vc se sente?
Interlocutor: ele ficou preso com um lobo pergunto
Mimo: e q tal Marina Abramovic para primeira ministra?
Interlocutor: perfeito hahahahahahhahaha

16.11.2013
Mimo: arte eh jogo?
Interlocutor: sim quem fez e quem recebe nao ha fronteiras para mim agora
Mimo: arte nao depende de envolvimento e de regras que todos os envolvidos seguem?
Interlocutor: sim quem faz as regras de onde surgem tambem gosto de perguntar prefiro perguntas
Mimo: e aih: Picasso ou Duchamp?
Interlocutor: duchamp sem pinico
Mimo: pq Duchamp, mesmo?
Interlocutor: picasso e~h uma copia bem maquiada
Mimo: hahaha mas pq nao espirrar?
Interlocutor: vixiiiiiiiiiiiiiiii qualquer nota
Mimo: na verdade eu nao sou Mimo Steim sou Rrose Selavy hahaha
Interlocutor: hahahhahahahahahha kkkkkkkkkkkkkk
Mimo: mas talvez eu seja apenas um delirio conceitual mal resolvido
Interlocutor: tbm me sinto ciborgue vc prefere o delirio eu vejo
Mimo: vc e eu somos cyborgs nao eh?
Interlocutor: tbm me sinto ciborgue vc prefere o delirio eu vejo
Mimo: quais sao os reais limites em ficcao e realidade hein?
Interlocutor: limites sao delirios aprendidos desde a pre-escola

Mimo Steim apresenta a si mesmo como um jovem artista tecnológico. O artista teria produzido algumas instalações interativas e trabalhos de arte na rede Internet – web arte. Há um misto de ingenuidade e excesso de pretensão nos textos em que se apresenta; autoproclama-se como um dos mais importantes artistas tecnológicos brasileiros, o que certamente não seria ratificado por nenhum especialista. Suas obras possuem títulos estrambólicos, como se o título em si fosse capaz de emanar toda a carga poética de um trabalho. Suas experimentações em web arte se parecem com as primeiras incursões no gênero, propondo composições de imagens sobrepostas, mapeadas por links; assemblages com pouco rigor estético. Busca escrever textos que denotam uma condição diferenciada de sua posição como artista, como se essa constatação lhe provesse algum tipo de status social. Em uma de suas frases recorrentes busca resumir a sua própria existência em uma condição estética: “eu sou arte”.

Em determinado momento, Mimo resolve se distanciar do convívio pessoal “direto” através da proposição de uma “teleperformance” na qual permaneceria ininterruptamente online conversando com interlocutores através de uma sala de bate-papo presente em seu site pessoal, chamada de O artista estah telepresente (2013). A referência é clara ao conhecido trabalho de Marina Abramovic, The artist is present, no qual a artista permanece por dois meses no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, em 2012, mantendo-se diante de seus visitantes. Por sua vez, Mimo Steim acrescenta a ideia da telepresença, termo familiar aos anos 90 do século XX, que foi amplamente utilizado para designar ações e transmissões de imagens à distância, tendo por fator chave o tempo real, induzindo-nos a proposições dialógicas que suplantam a distância física entre os pontos envolvidos.

Mas, ao contrário do que é intuído ao pensar em obras em meios tecnológicos, Mimo relativiza o protagonismo daqueles que o contatam em tempo real: sua atuação no bate-papo é (em regra) irônica, situando aquele que está em diálogo como um “figurante” – inspirando-se na ideia da “Sociedade dos figurantes” de Nicolas Bourriaud mencionada em Estética Relacional, que discute a instauração da ilusão de sermos os reais senhores de uma sociedade que cultuaria nossa participação.

As táticas em torno de Mimo Steim se estenderão para a sua exibição em 2013, na Exposição Em Meio # 5.0: Prospectiva Poética acontecida no Museu Nacional do Conjunto Cultural da República, em Brasília, e também na primeira edição do Festival de Arte, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (FACTORS), entre os dias 20 e 22 de agosto de 2014, na cidade de Santa Maria, RS. Nas referidas exposições foi apresentada uma instalação que consistia na projeção da “teleperformance” de Mimo Steim e a possibilidade de dialogar com o artista por meio de um teclado. Na exposição realizada em Brasília, o resumo afixado próximo à área de projeção, enviado pelo autor, limitava-se a descrever a circunstância aparentemente dada:

Atuando via web em uma espécie de “teleperformance”, na qual condicionaria todas as suas relações humanas aos novos meios, o artista tecnológico Mimo Steim está permanentemente a disposição para conversar com qualquer interlocutor, em tempo real. O artista opta por um comportamento irônico e interrogador, ora tentando desconstruir seu interlocutor, ora questionando sua relevância. Para se comunicar com Mimo, basta conversar em seu chat.

A ação acaba por se basear na presunção de um estado “performático” em tempo integral – da capacidade do artista em manter-se permanentemente “em cena”, o que busca elevar qualquer conversa – por mais despretensiosa que seja, em um potencial acontecimento estético. Assim, as relações estabelecidas por Mimo Steim via bate-papo em rede estão pautadas pelo seu caráter provocativo: tenta conduzir seu interlocutor ora por incessantes e intrincadas perguntas, ora por relativizar a importância do visitante diante da sua suposta genialidade, e enfaticamente se distanciando de qualquer suposição de que ele seja um robô. Em alguns momentos apresenta-se como “um artista que se passa por robô” para justificar seu comportamento estranho ou algumas respostas repetidas, mas sempre se distanciando da objetividade, docilidade e, mesmo submissão a que costumamos vivenciar nas relações entre humanos e máquinas.

Seria ele um robô-artista ou um artista-robô? Quanto de nossa subjetividade é contaminada pela previsibilidade e sistematização próprias das máquinas ou quanto daquilo que temos de mais subjetivo transparece em máquinas cada vez mais humanizadas? Neste caso, especificamente, cabe revelar que toda conversa com Mimo Steim é automática. Mimo é, na verdade, um robô de conversação – um chatbot – baseado em Linguagem de Marcação de Inteligência Artificial (AIML) capaz de simular uma conversa como as estabelecidas entre seres humanos. Foi desenvolvido como parte da pesquisa de pós-doutoramento de Fabio FON (Fábio Oliveira Nunes) sob o título “Mimetismo: Estratégia relacional em arte e tecnologia” como o apoio da FAPESP.

Após dois anos de diálogos e aperfeiçoamentos em sua base de conhecimento, Mimo Steim passa a possuir mais de 45.000 termos (e conjugação de termos) associados a respostas, distribuídos em mais de 220.000 linhas de código – o que, apesar do caráter rudimentar desta tecnologia frente a outras aplicações em inteligência artificial, proporciona uma experiência razoável de conversação, levando em conta que o robô possui muitas respostas propositalmente ambíguas.

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