Arquivos de Fevereiro 2007

Googlando a poesia

28 Fevereiro 2007 | Cronópios | 1 Response

 Artigo publicado em http://www.cronopios.com.br/, dia 05/02/2007. 

É evidente que a rede Internet traz para a poesia – e para toda a produção literária – uma visibilidade e uma acessibilidade nunca antes experimentada. Ao possibilitar a inserção de faturas poéticas completamente independentes do circuito editorial comercial, emerge na rede a figura de um autor-editor – ou ainda, do leitor-editor – já que passa a existir um rodízio de papéis na seleção sempre metonímica dos conteúdos do ciberespaço. Diante de um universo de pretensões infinitas, o garimpo literário se resume àquela pequena parte ao qual, por alguma benesse do destino, tivermos acesso. Pequena parte? Mas, e se formos ao todo-poderoso Google? Bem, você estaria disposto a percorrer cada um dos mais de 30 milhões de endereços da rede que ele apresenta sob a insígnia POESIA?

Não, esta não é uma discussão em torno da quantidade, apenas. O Google é uma das ferramentas de busca mais utilizadas no mundo, talvez uma das mais eficientes maneiras de encontrar agulhas no palheiro da web. Essa eficiência está relacionada com a sagacidade de seus programas-aranha que percorrem a teia planetária em busca daquilo que é comum aos poetas: a palavra. Toda a indexação presente no Google se baseia simplesmente nas palavras expostas em cada página da rede. Por um lado, isso pode trazer objetividade: digamos que eu queira saber sobre a vida de Carlos Drummond de Andrade, basta que eu digite o nome do poeta e a palavra “biografia” e inúmeros endereços pipocam na tela. Agora, mesmo que exista um site que fale minuciosamente sobre cada ano de vida do poeta, sobre seus pratos prediletos e cor de camisa preferida, a simples ausência da palavra “biografia” automaticamente o exclui dos meus resultados googleanos. Isso porque a indexação ocorre sem enxergar contextos ou tramas relacionais. Por outro lado, há também aqueles que se apropriam da burrice dos programas-aranha para direcionar novos públicos: ora, insira palavras de grande apelo no seu site – como o nome da última celebridade instantânea – e obtenha acessos monstruosos.
 
Mas lembre-se que se você é poeta, tem um blog no qual você toda semana ou todo dia publica textos inéditos, mas que, por algum motivo nunca utilizou a palavra POESIA em sua página, você automaticamente está fora destes 30 milhões de resultados. O que não é ruim, afinal, estar entre 30 milhões é o mesmo que não estar. Do mesmo modo, cada palavra de cada poema seu é potencialmente um destino para as mais distintas buscas, ainda que possa não ser o destino desejado por aqueles que buscam.

Com a expansão da rede, se faz necessária a adoção de sistemas computacionais que se permitam perceber contextos sutilmente. Ora, muita informação, humanamente inacessível, torna-se igual a nenhuma informação. Em diversos sites comerciais, especialmente em livrarias, há “agentes” computacionais que comparam as compras de cada indivíduo tentando estabelecer um “gosto” por conta de freqüência dele e dos demais clientes.  Se eu compro sempre títulos de determinado assunto, observando perfis parecidos (outros clientes que compraram os mesmos livros), ele pode sugerir um título com maior chance de sucesso: é a história do “quem comprou este livro também comprou este”. Mas assim como nas aranhas do Google, os agentes não sabem muito bem o que estão fazendo: este tipo de práxis não decola além do tangível e do quantificado. Imagine um “agente” capaz de entender a complexidade de suas escolhas, a ponto de distinguir o que realmente vale ser apresentado a você. Ideal. Enfim, enquanto os sistemas pouco enxergam, resta-nos apenas buscar cada um dos 30 milhões de resultados: http://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&q=poesia&meta= . Haverá tempo de sobra.

Fábio Oliveira Nunes
 

Quando o autor perde o seu poder

5 Fevereiro 2007 | Cronópios | No Responses

Artigo publicado em http://www.cronopios.com.br/, dia 22/12/2006. 

 

Em quase aquilo que se produz criativamente há uma ditadura do autor único e da obra em que os papéis – de quem faz e daquele que recebe a mensagem – estão bem claros. Seja um filme, uma pintura ou um poema, a figura do autor está definida na essência como um realizador em completude. Mas, e se você pudesse proporcionar ao seu leitor, um pouco do seu poder enquanto autor, você o faria? Aceitaria talvez, descer do pedestal de um manancial criativo e passar a ser simplesmente um propositor de situações?

Os novos meios potencializam a criação de espaços que poderão dissolver a idéia institucionalizada de autor, a partir do momento em que cada visitante-leitor passa a ser visto além de sua passividade, como um elemento ativo e fundamental no processo. Se você produz nos moldes convencionais, poderá argumentar que o seu leitor é também um elemento ativo e fundamental, já que ele também “participa” pela multiplicidade de leituras advindas de seu repertório pessoal. Mas lembre-se que essa ação estaria ainda circunscrita na mente do seu leitor. Há inúmeras tentativas na arte contemporânea de fazer com que o visitante insira a si mesmo na obra efetivamente: que produza realmente algo que passe a ser parte da obra. Mas – enquanto autor – você estaria pronto para colocar as rédeas na mão de um elemento desconhecido? Será que eu poderia parar este texto por aqui e pedir para que alguém – uma coletividade conectada – continuasse por mim?

Os novos meios não acabam com essa ditadura, mas nos dão uma opção de não adotá-la. Aliás, essa ditadura não é uma estrutura falida, mas sim uma estrutura rígida demais diante da fluidez que as redes proporcionam. Neste caso, nada melhor que observamos a tão adorada Wikipedia – enciclopédia da Rede Internet composta de verbetes criados por qualquer um, a qualquer hora, sem qualquer limite ou necessidade de identificação. Não quero entrar no mérito da qualidade da informação ali disponível, mas temos um exemplo bem resolvido de uma entidade coletivamente gerada e gerenciada. Coloque um verbete lá e verá em algum tempo, como essa coletividade age na alteração daquilo que não é só seu.

Neste sentido, vários artistas da rede passam a pensar também em modos de tornar essa coletividade, parte ativa de suas produções. O trabalho Comunidade de Palavras das artistas brasileiras Silvia Laurentiz e Martha Gabriel é um excelente exemplo de espaço em que ao contrário do que estamos acostumados a ver, não temos a divulgação, mas sim a proposição de um espaço para a geração de poemas – nesse trabalho, altera-se a relação de produção: em vez de um indivíduo só escrevendo a uma coletividade, temos uma coletividade escrevendo para si mesma.

O site Comunidade de Palavras é um sistema multiusuário onde o visitante é convidado a criar um poema, que será indexado a uma “comunidade” que o configurará num determinado status dentro do “grupo”. Não temos apenas, portanto, a inserção da palavra, mas também um mapeamento permanente das palavras mais usadas e palavras que são empregadas com outras. Conforme novos poemas são inseridos, o sistema apresenta a emergência de padrões, dando face a um autor verdadeiramente coletivo.  Haveria uma argumentação possível a aqueles que – como eu – não acreditam na dissolução do autor individual: haveria talvez um reposicionamento do seu papel, agora muito mais ligado aos procedimentos do que ao produto final. Talvez a autoria ainda permaneça, mas neste sentido muito mais propositivo: o que não exclui uma perda de poder em torno dos resultados. O site Comunidade de Palavras pode ser acessado através do endereço: http://www.ociocriativo.com.br/laurentiz/ .

Fábio Oliveira Nunes