Arquivos de Novembro 2006
Miopias e utopias: como viver junto sem Internet?
27 Novembro 2006 | Cronópios | No Responses
Artigo publicado em http://www.cronopios.com.br/, dia 31/10/2006.
A pergunta existencial do momento é: como viver junto? Parece-me míope tentar responder a esta questão pela metade, desconsiderando um universo essencialmente social – de encontro com o outro – como é a rede Internet. Bom, o contexto trazido pelos trabalhos da 27ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo, traz a tona especialmente a vida urbana e os distúrbios sócio-culturais, numa visível continuidade das propostas das duas edições anteriores – Iconografias Metropolitanas (2002) e Território Livre (2004) – porém, trazendo uma complexidade e uma abertura de posicionamentos bem mais dinâmicos e líquidos, além de um compromisso mais denso com a vida real. É uma das edições mais políticas e talvez por isso mesmo, traz pequenas lembranças de momentos dos anos 70, em que artistas desafiavam o regime – e hoje desafiam hordas de advogados, vide o ocorrido com o grupo dinamarquês SUPERFLEX e seu Guaraná Power, proibido de ser veiculado pela Fundação Bienal, ou mesmo, a interferência no trabalho com bloqueadores de celulares de Marcelo Cidade.
Proibições à parte, por ser o mais importante evento das artes plásticas na América Latina, essa efervescência política cria visibilidade para um ativismo artístico cada vez mais crescente – sintomático de uma situação que começa na intolerância das diferenças e termina na onipresença do mercado. Mas ao mesmo tempo, discute-se a própria essência da arte – seu ideal estético e seus significados abrangentes – onde a objetividade das propostas do pavilhão pode ser facilmente confundida com a tirania de um só discurso.
Mas como viver junto sem Internet? Eu, hoje, não saberia responder. Aliás, talvez o melhor termo a ser usado aqui seria ciberespaço – que é o termo adequado para designar a rede que está disposta através de sistemas computacionais, celulares, televisores, satélites e que ditam cada vez mais a nossa paisagem social – tanto como contexto contemporâneo como também no sentido que estes meios redefinem maneiras de como nos relacionamos. Veja bem: conversas de celulares, mensagens SMS ou scraps deixados no perfil alheio do Orkut possuem especificidades de linguagem, tempo, situação e objetivos distintos das nossas relações cara a cara. E não se trata apenas de entusiasmo: ao contrário de imaginar que estas relações nascidas no ciberespaço seriam mais profundas ou significativas que aquelas que estão fora do meio telemático, na verdade, sua principal força é destituir as barreiras geográficas e planificar a comunicação à medida que há maneiras de driblar o poder local, econômico e a censura, por exemplo. A Internet certamente não é a solução para se viver junto, mas ao mesmo tempo, faz emergir convivências cada vez mais recorrentes e menos efêmeras, situações estas praticamente excluídas da discussão do Pavilhão do Ibirapuera.
Praticamente excluídas, digo, porque os novos meios e por extensão, a rede invariavelmente já estão indiretamente influindo enquanto percepção e repertório. Esses dias, quando tive que pensar sobre a relação da escrita e dos novos meios, deparei-me com uma interessante observação de Steven Johnson, em seu livro Cultura da Interface (Jorge Zahar Editor, 2001) sobre como passamos a escrever quando deixamos lápis e papel de lado: a adoção de “processadores de textos” implica numa sensível alteração da nossa produção e conseqüentemente do pensamento nela envolvido. Veja bem: tente observar quantas vezes, na produção de um texto digitado – seja literário, acadêmico ou mesmo coloquial – você volta e refaz palavras e como o pensamento flui a medida que você escreve e não mais como um pensamento anteriormente construído para toda a frase. Perceba que sua escrita mudou justamente pela possibilidade de existir uma asséptica tecla BACKSPACE – ao invés de um inconveniente corretivo. Assim, por temos que manter certo distanciamento disso tudo como se estivesse num outro plano, se já faz parte de nós?
O único trabalho tido como web arte da 27ª Bienal não possui qualquer interatividade, não estabelece qualquer relação entre aqueles visitantes que o acessam, aliás, é extremamente contemplativo e tecnicamente falando poderia ser visto sem qualquer conexão com a rede – e até mesmo, utilizando-se de um DVD player, por exemplo. Trata-se do trabalho da dupla Young-Hae Chang Heavy Industries (da Coréia do Sul, Young-Hae Chang e Marc Voge) que dialoga muito mais com o cinema – pela narratividade e pela disposição sob a forma de créditos – do que com a própria rede. O trabalho é baseado em textos que abordam o cotidiano, ora banal, ora político em Seul e o faz de modo inusitado e criativo. Bom, se faz necessário dizer que é evidente que um trabalho artístico na rede não precisa ser interativo ou ser sempre visto só on-line – muito pelo contrário, o fato de negar determinadas especificidades pode certamente ser muito rico – mas a escolha do trabalho da dupla simbolicamente sela o distanciamento de discussões mais profundas. O trabalho de Youg-Hae Chang Heavy Industries pode ser visto pelo site: http://www.yhchang.com/ .

Ainda sobre: fora da 27ª Bienal, o artista Fred Forest cria um espaço de contestação do megaevento, fazendo com que cada cidadão possa participar de uma Bienal do futuro, em que o tempo e o espaço estão abolidos: http://www.biennale3000saopaulo.org/ .
Fábio Oliveira Nunes
Ronaldo e o time dos concretos
16 Novembro 2006 | Mixórdia | 1 Response

Ronaldo Azeredo
1937 - 2006
Inventivo poeta, pessoa muitíssimo carismática. Mas do que nunca, vale a pena acessar a sua única entrevista dada em vida, no site Trópico: http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2529,1.shl .
Muito além de qualquer lugar
13 Novembro 2006 | Mixórdia | No Responses
MOBILEFEST: Festival de arte e criatividade móvel
O primeiro evento brasileiro voltado especialmente para práticas artísticas (ou criativas, como é colocado pelo subtítulo) com a utilização de celulares pensando nos desdobramentos socioculturais que os telefones celulares e a tecnologia móvel promovem. Além das especificidades do meio em discussão, ainda mais interessante é levantar os espaços de sociabilidade em que estas redes implicam.
O evento é realizado no SESC Avenida Paulista, em São Paulo. O seminário internacional ocorre nos dias 16 e 17 de novembro e a mostra expositiva entre os dias 16 e 19 do mesmo mês. Mais: http://www.mobilefest.com.br/ .
Questões de arte e tecnologia? Veja as F.A.Q!
8 Novembro 2006 | Mixórdia | No Responses
?F.A.q. > Perguntas sobre Arte, Consciência e Tecnologia
Retirado do site do SESC SP
O fórum F.A.q. > Perguntas sobre Arte, Consciência e Tecnologia acontece nos dias 30 de novembro, 1º e 2 de dezembro [2006], no SESC Avenida Paulista, em São Paulo, e reúne 17 integrantes do Planetary Collegium -uma comunidade internacional de artistas-pesquisadores, dirigida pelo visionário artista e teórico Roy Ascott - além de artistas brasileiros e intelectuais.

O evento inclui três dias de palestras, mesas de debates, comentários sobre arte digital e a mostra online dos artistas-pesquisadores participantes. Eles vêm da Inglaterra, Estados Unidos, Canadá, Finlândia, Suíça, Itália e Turquia, convidados a estabelecer um diálogo aberto com artistas brasileiros e público em geral sobre as confluências contemporâneas entre arte, consciência e tecnologia.
Durante os três dias, a pergunta será a essência. Vem daí o nome F.A.q. De frequently asked questions ou perguntas freqüentes. Os chamados “perguntadores” foram convidados especialmente para provocar o debate. A característica que os une é o olhar estrangeiro ao contexto especializado da arte e tecnologia. Eles mediam as mesas, apresentando cada tema sob os seus próprios pontos de vista e questionam. Além deles, o público também pergunta - presencialmente ou no fórum online.
Inscrições e mostra digital em http://www.faq.art.br/ .
Quando viver junto não é a questão
4 Novembro 2006 | Mixórdia | 2 Responses
Conforme um texto que escrevi para o site Cronópios – e que deverá estar em breve aqui no blog – acredito que a 27ª Bienal de São Paulo possui muitos méritos ao trazer a tona uma produção artística crítica e politizada. Porém, uma das questões sempre presentes ao nos depararmos com essa produção é a aproximação entre arte e comunicação e/ou ação artística/ação social, que torna algumas coisas óbvias demais. Muitos trabalhos são o que apresentam, apenas. Talvez por isso, muito se tem falado sobre esta Bienal – em geral, pela pouca significância de seus trabalhos neste sentido.
Bom, independente de gostar do “Como viver junto”, aquilo que “falta” ao megaevento está ali muito próximo, no recém-ocupado Pavilhão Armando de Arruda Pereira (antigo espaço do PRODAM, órgão municipal), no próprio Ibirapuera. É a exposição PARALELA 2006, com a apresentação de artistas brasileiros contemporâneos como Regina Silveira, Tadeu Jungle, Lenora de Barros, Lucas Bambozzi, Ana Maria Tavares, Kátia Maciel, Marcia Xavier, Caetano Dias, Cildo Meireles, enfim, quase 150 nomes (mais artistas que a própria Bienal) numa exposição sem um fio condutor (como é assumido pela própria curadoria), mas com qualidades que farão muitos acreditarem que estão num outro pavilhão do parque – se o público não fosse tão pouco, evidentemente.
A exposição permanece no Pavilhão Armando de Arruda Pereira até 19 de novembro.